Chamados para a liberdade


07/04/2014 - 11:12
Dom Canísio Klaus
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)

Durante a semana tivemos muitas manifestações relacionadas ao golpe militar de 1964, que resultou na ditadura militar implantada no Brasil por 21 anos. Em quase todas as manifestações se destacou a falta de liberdade, que é uma das características da ditadura.

As reflexões sobre a ditadura militar podem ser enriquecidas com as reflexões da Campanha da Fraternidade de 2014 em torno da temática do tráfico humano. Ao afirmar que “É para a liberdade que Cristo nos libertou”, os organizadores da campanha alertam que “nenhuma escravidão é bem vinda no seio da comunidade cristã”. Da mesma forma, podemos dizer, nenhuma ditadura é bem vinda ao governo dos países democráticos.

Em todas as modalidades do tráfico humano, apresentadas nos nossos artigos anteriores – tráfico para a exploração no trabalho, para exploração sexual, extração de órgãos e tráfico de crianças e adolescentes - tornou-se evidente a privação da liberdade da pessoa. É o que afirma categoricamente o Texto Base da Campanha da Fraternidade (n. 9): “O tráfico humano condiciona as pessoas à escravidão e fere a dignidade da pessoa humana, a qual perde todos os seus direitos inalienáveis: de estar livre de toda forma de exploração; de estar livre de tratamento desumano e cruel; de estar livre de todas as formas de violências e torturas físicas e psicológicas; de estar livre de discriminações baseadas em origem, raça, sexo, cor, idade; a garantia da liberdade de ir e vir, de permanecer e ficar; a garantia de exercer sua personalidade, sua aptidão legal, para fazer valer seus direitos enquanto filho e filha de Deus”.

A liberdade das pessoas faz parte do projeto de Deus. A fé cristã diz que, ao criar o ser humano, Deus lhes concedeu, desde logo, a liberdade de escolher entre o bem e o mal. Quando os poderosos começaram a escravizar os mais fracos, Deus se posicionou ao lado dos oprimidos e os ajudou a se libertarem da escravidão do Faraó do Egito e do exílio na Babilônia. Os profetas denunciaram com vigor a prática da escravidão e a privação da liberdade das pessoas, sendo que Amós chegou a sugerir que “oprimir o pobre é o maior de todos os pecados” (Am 4,1).

No começo do evangelho de Lucas, Jesus se apresentou como aquele que tem a missão de “dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça da parte do Senhor” (Lc 4,18). Durante sua vida pública, Ele se empenhou em denunciar as injustiças, combater as discriminações e “libertar os oprimidos do mal que os afligia”. Com a sua morte e ressurreição redimiu a humanidade da prisão do pecado e lhe devolveu a condição de criaturas livres. Por isso São Paulo, ao afirmar que: “É para a liberdade que Cristo nos libertou”, alertou: “não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão” (Gl 5,1).

Conscientes de que somos chamados para a liberdade, unamo-nos no combate a todas as formas de escravidão que existem em nosso meio. Ergamos a bandeira da democracia contra as ditaduras e denunciemos toda e qualquer forma de tráfico humano que ameaça a liberdade das irmãs e dos irmãos.


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